Saturday, November 07, 2009

Dona Eleonora


Ah, o casamento! A celebração dos finais de novela com a beleza dos vestidos da noiva e das madrinhas; a beleza do ritual religioso; a emoção das sogras; a simetria dos arranjos de flores; as lembranças trazidas pelo repertório musical escolhido; a fome dos convidados na missa e a fartura do banquete na festa de recepção... o prato que voou na cabeça do Plínio Humberto.
- Seu infeliz! Eu te odeio!
O tumulto inicial.
- Mas, meu amor, me desculpe!
Os olhares desconfiados.
- Desculpe o caramba!
A incerteza dos músicos em continuar a música.
- Você sabe que eu fiz isso por amor!
O interesse geral no desenrolar da história.
- Por amor a quem? Desde quando ter um filho com outra é amor?
As mãos cobrindo as várias bocas abertas com a revelação.
- Mas você não pode ter filhos!
O fim da música.
- Como ousa fazer isso comigo no dia do nosso casamento?
A indignação da família da pobre coitada.
- Mas eu não fiz isso hoje!
A indignação da família do rapaz.
- Não precisa me dizer o dia que fez...
As lágrimas nos olhos dos mais sensíveis.
- Achei que fosse gostar se eu te desse um filho de presente de casamento!
A bronca que a criança levou por ainda estar comendo em meio à confusão.
- Precisava ter transado com ela pra isso?
As mãos nos ouvidos das crianças.
- Ela disse que as chances seriam maiores se fosse dessa forma.
Os convidados começando a sair.
- Eu vou te matar desgraçado!
Os convidados voltando.
- Já disse que foi por amor!
O pessoal do buffet recolhendo as facas de perto da noiva.
- Por amor a quem? Só se for ao diabo!
As mãos nos ouvidos do padre.
- Por amor a você! Já disse!
O bebê começando a chorar.
- O que você quer dizer com isso? Que eu sou o diabo?
O abrir da garrafa de champagne. O champagne nas mãos da futura madrasta. O grito geral dos convidados. O estampido seco do estouro da garrafa. A tampa da garrafa no olho do recém-ex-casado.
O desmaio da sogra, dona Eleonora.




Thursday, July 16, 2009

É retórica.


- Bom dia! Tudo bem?

- Só se for pra você...

“Gentinha nojentinha. Por que fazem questão de estragar o dia dos outros? Ah, não, faça-me o favor! Quando é pessoa de idade (ou, como dizem hoje em dia, gente da melhor idade (pra dormir)) aí me revolto ainda mais. Por favor! Há quantos anos respondem a essa pergunta com o mesmo mau humor? A pergunta é retórica! Quando perguntamos, ‘tudo bem’, praticamos o cinismo social. É como se perguntássemos ‘tem horas?’ Ninguém espera que o próximo (do inferno) responda ‘tenho’ e continue caminhando feliz. Ou eles esperam. Vai entender esse bando de macacos falantes que nos tornamos. Só não jogamos mais coco uns nos outros. Tem uns que jogam outras coisas. Tipo água. Um infeliz esses dias passou com o carro em cima da poça e me molhou inteiro. Certeza que tem coco de bicho lá no meio. ‘A rua é suja, ô macaco!!!’ gritei pro rapaz. ‘Por que não joga água naquela chimpanzé gorda da sua mãe?’ O pior é que nem ouviu o meu xingamento triunfante, porque nesse país quem joga água nos outros, com carro, tem carro! Gentinha nojentinha!

Hoje eu não tava pra ninguém. Queria me imaginar longe de tudo e de todos. Especialmente longe de todos. Mas não dá. Povo se aglomera em qualquer lugar. ‘Ai, um acidente!’ junta um bando de desocupado. ‘Promoção!!’ e mais gente. ‘Último dia pra pagar a conta de luz’ e a fila vira a esquina da lotérica. Cá estou eu, em uma fila. E é sempre assim, cinco caixas. Quatro são de enfeite e têm uma plaquinha ‘dirija-se ao caixa ao lado’. E o desemprego ferrando com todo mundo. E mais e mais gente pegando ônibus. Esses dias uma senhora começou a gritar ‘Gente, vai mais pra lá, eu to amassada na porta’ e atrás um aviso ‘favor não encostar na porta’. ‘A senhora não ta vendo que não dá pra se mexer?’ e do outro lado tinha até uma cadeira sem ninguém sentado. Povo se aglomera, é igual ímã. Gentinha nojentinha.
E eu ainda utilizo o cinismo social.”

- Bom dia! Tudo bem?
- Só se for pra você...

- É retórica! É retórica! [gritei] A pergunta é retórica! Eu não to nem aí se o seu dia foi um cu igual é a sua cara sua velha (adivinha se não era da melhor idade pra eu xingar!) Só se for pra você o cacete! Que foi? O dia ta ruim porque a senhora se viu no espelho ou porque não se viu? Fantasma!! PASSAR BEM! (e a sociedade ainda me obriga a terminar mais uma vez com cinismo social).

Monday, July 06, 2009

Sonho de Consumo


Enquanto pressionava ambos os botões do elevador, o de subir e o de descer, reparava no caos da sociedade moderna.
A loira alta de vestido preto e óculos da Prada acariciava os cabelos grisalhos do velho patrocinador. A criancinha de Tigor T. Tigre gritava pedindo ao pai um novo carrinho, prometendo nunca mais pedir outro. A velhinha de roupa sem marca tomava sorvete escondida da família.
O elevador chegou. Ia descer, mas ele queria subir. Não faz mal. Pegou mesmo assim, sem se certificar – como pedia o recado ao lado - se este já estava no local ou se um abismo o esperava.
“Caramba...”, pensou, “que demora pra descer”. O elevador ficou lotado no primeiro andar do shopping. Aquele povo pra direita, aquele povo pra esquerda. Quanta gente.
Ao chegar ao terceiro andar, desespero pra sair. Empurra-empurra generalizado pra deixar um elevador que, afinal de contas, esperaria todos saírem de qualquer forma. O playboy que vestia Levi’s fez uma piadinha que só funcionou com seus outros amigos playboys. O pobre com a camiseta do time do coração se revoltou e queria pegar de pau aquele cara pra aprender a ser gente.
A guerra de canudos foi mais pacífica do que o empurra-empurra do elevador. Finalmente livre, começou a passear pelos corredores para olhar as vitrines com preços promocionais que passavam da casa da dezena. O vendedor vestindo o uniforme da loja tentou abordá-lo quando passou perto da porta. “Não quer dar uma olhadinha nas nossas novas camisetas, amigo?” “Já que perguntou”, disse, “não quero não.” Santa paciência. Uma mãe passou ao lado dele quase o carregando junto com as sacolonas da Renner cheias de roupas ainda não pagas pra família toda.
Que mundinho capitalista desgraçado.
A loira de Prada rasgou a cabeça do grisalho patrocinador com suas unhas postiças. Desesperada, correu gritando pelo corredor do segundo andar do shopping quando, sem querer, esbarrou na criança de Tigor T. Tigre que caiu de cabeça no chão perto da velha de roupa sem marca que sem querer morreu engasgada com a casquinha. O playboy de Levi’s passou do lado do pobre com camiseta do time do coração que o espancou. Os amigos do playboy estavam armados e atiraram contra o pobre errando e acertando o inocente vendedor que abordava as pessoas naquele momento na porta da loja. Assustada com o barulho do tiro, a mãe tropeçou, durante a correria, nas sacolonas da Renner e rolou escada rolante abaixo.
Tudo isso seria bom demais pra ser verdade.
Enquanto pressionava ambos os botões do elevador, o de subir e o de descer, uma fila já se formava atrás. Nela, uma loira de Prada e um patrocinador, uma criança chorando de Tigor T. Tigre e uma velha de roupa sem marca com restos de sorvete na boca.

Wednesday, June 10, 2009

PENSO DEPOIS



Sabe aquele sentimento que se sente no dia da morte?
Pois bem, ele sentiu exatamente isso.
Pobrezinho. Se pudesse fazer algo por ele, faria. Mas, consolo não há quando se sabe que está próximo o final da linha da vida que temos em nossas mãos. Pensou até em continuar à caneta a dita cuja. Logo mudou de idéia. Não podia ser simples assim. Resignou-se.
Em Curitiba, lindo dia para morrer. Se estivesse ensolarado o dia seria de andar no parque. Olhou em volta aquelas moças todas de branco que lhe sorriam esbanjando simpatia a sua condição final.
Ouvia atenciosamente o que falavam dele. Pobre homem. Há poucos minutos sentiu o que os que já se foram sentiram. Eu sei porque eu já me fui. Experiência estranha, mas ainda assim experiência válida, como o primeiro exame de sangue, a primeira queda em meio a uma população de curiosos, o primeiro salário, a primeira lâmpada trocada.
Experiências. Não as queremos todas, mas resignamo-nos em tê-las. Uma vez me disseram que era impossível não gostar dos Beatles. Resignei-me e gostei deles. Outros diziam que era impossível tomar a casquinha do McDonald’s sem resfriar-se. Resignei-me e me resfriava a cada nova mista (chocolate e baunilha pelo mesmo preço, definitivamente melhor).
Que saco, pensamos. Por que temos que sentir o que se sente no final da linha verde? A cidade sorriso já não lhe sorri mais, se é que algum dia lhe sorriu.
Resignou-se mais uma vez. Abriu os braços e disse bem alto: Vem me pegar! Aquilo ecoou de tal forma, que de fato o pegaram.


Por alguns minutos não pude mais escrever. Senti-me tonto. Com a tontura, cai por terra (se tivesse um oceano caia por lá que seria menos dolorido). Olhei meu instrumento de trabalho – a mão para os que não viram que sou escritor – e percebi que nela havia uma continuação, à caneta, da linha da vida. Estranho.
Mas e ele? Como está ele? Vou bem. Sinto-me um pouco tonto. Pensei que a hora havia chegado de me despedir.
Muito cedo. Mas sabia que ia ser hoje. Situação aflitiva essa. Como quando alguém quase enfia o dedo no seu olho, ou, como quando sentimos um aracnídeo caminhando por sobre nós. Como quando me dá fome.
Arrepiou-lhe as costas.
Arrepiei-me ao arrepiar-lhe.
Passa morte que eu to forte.
Ajudei-o a se levantar da cama e a desamarrar-lhe os braços. Carreguei-o no colo e corri para fora. Vou pro final da linha. Santa Cândida! Pureza que precisamos na hora do último suspiro. Se soubesse onde ficava Pasárgada ia pra lá. Mas nem isso me disseram e se quisesse a mulher que queria na cama que pudesse iria pro café paris que ficava mais próximo. Resignar-mos-emos.

Próxima parada, estação Morrestes.

Ela disse isso mesmo? Era o terceiro sinal de que precisava. O sentimento, o arrepio, a mensagem subliminar. É sempre assim. Parecia um pouco confuso. Eu ria e dizia-lhe que era desse jeito mesmo. Não tem como escapar. Sei porque já passei por isso. Veja, está com uma caneta e papel na mão porque vai querer que leiam sua história depois de tê-la finalizada. No lugar do título, “Penso Depois”, porque no momento não lhe vinha nada à cabeça, mas sabia que devia ser algo impactante. Assim como nas fotos dos destroços do avião da Air France que caiu, ou, como na imagem da explosão da bomba nuclear que ameaçavam jogar no Japão. Assim como no ônibus. Porque esta podia ser minha última refeição.
Próximo à linha da vida feita em caneta Bic, marcas vermelhas. Estranho. Devo ter me machucado quando desfaleci. Desviver só daqui a pouco.


Era uma noite linda pra morrer. E ele sabia disso. De alguma forma naquela manhã, sentiu que era o fim, disse pra mim mesmo que conto a história. Fez um pedido ao ver a estrela cadente, pra quem vem (levando em conta que alguém poderia vê-la de cabeça pra baixo). Deixa eu viver. Não dava. Depois que se tem o sentimento, o arrepio e a mensagem subliminar, o melhor que podemos fazer é resignarmo-nos.
Santa Cândida estava na minha frente. Preferia Santa Felicidade, mas era pedir demais num momento desses.
Resignou-se ainda mais uma vez.
Resignamo-nos todos ao final.
É assim mesmo. Uma facada no coração (tirei do bolso caso se pergunte de onde ela veio). Quase sem tempo, escrevi a linha final.
Morremos.

Monday, November 03, 2008

Insônia


Falta de papel, falta de caneta. Falta de inspiração.
Onde escrever? Como escrever? Pra que escrever? Pra que pensar? Como parar de pensar?
O que faço aqui? O que não faço?
Pra que dormir? Perder tempo? Tudo uma perda de tempo.
Pra que acordar?Abrir os olhos pra ver que todos somos um nada cheios de tudo até a tampa...

Estupefatamente Estupefato
Estupefatalmente Estúpidos.
Viver o presente pra morrer no futuro.
Viver do passado pra se matar no presente.
Viver em tempo algum pra não ter passado, presente ou futuro...
Viver a espera da morte e

Morrer a espera de uma outra vida.

Falta de papel, falta de caneta, falta de inspiração, falta de escrever, falta de pensar, falta de dormir, falta de acordar, falta de viver.





>>> Para melhor aproveitamento do texto.. experimente ler com o audio que está aqui em baixo...
] o autor [

video

Friday, August 15, 2008

PUTZ!


E no sabe-se lá que dia o homem inventou os dias e as horas.
E no sabe-se lá mais que dia inventaram que o mundo ia acabar.
No décimo segundo ano de sua vida Rodolfo inventou ter medo disso de fato acontecer.
Dias cabalísticos foram inventados pra ele ter medo deles. Oito do oito de oitenta e oito; nove do nove de noventa e nove; o ano dois mil então, que medo... Mas tudo passava e ele parecia no final esquecer-se do Final. Até que por ventura outra data cheia de números repetidos voltasse a aparecer.
A bola da vez agora era o dia doze do doze de dois mil e doze. Que medo Rodolfo sentia. E não sei quem disse que nesse dia o mundo acabaria; o que aumentava ainda mais a chance disso poder acontecer. Para Rodolfo, o fato de alguém prever alguma coisa aumenta a possibilidade de sucesso da predição.
Tamanha era a paura do rapaz que nem conseguia pensar nas coisas interessantes que faria antes de morrer. Não fez nada e o coração palpitava mais forte à medida que a dita data se aproximava.
Como seria o fim? Uma tempestade? A cada chuvinha mais forte Rodolfo se estremecia mais. Será que vem um cometa? Ah se um desses programas de notícias comentasse a possibilidade de em 360 anos ou mais um meteoro colidir com a Terra.
Eis a chegada do dia doze. Do mês doze. Do ano de dois mil e doze. Doze horas. Doze minutos. Doze segundos.
E nada.
Ah, como Rodolfo respirou aliviado. Pensou na besteira de sua preocupação já que os dias e horas foram criados pelos humanos e que Deus não necessariamente concordaria com isso. Dormiu relaxado em pensar que uma data dessas demoraria a aparecer de novo já que não havia mês treze pro ano que vem.
Acordou radiante no dia seguinte. Dia treze. Quando bateram cinco horas da tarde... BUM.

Monday, May 26, 2008

24:38


Acho que geralmente dizemos a mesma coisa para aniversariantes porque com o passar dos anos a memória vai enfraquecendo e a gente tem medo de que o outro esqueça aquilo que desejamos há um ano.
Começa sempre assim: Oh Fulano... parabéns... muitas felicidades... muitos anos de vida... tudo de bom pra você viu!
Um ano depois, a mesma ladainha.
Era assim com Dona Célia, que se irritava com pequenices bem pequenas da vida. Seu aniversário seria hoje. Já sabia o que o povo todo ia dizer! Oh, Dona Célia... parabéns... muitas felicidades... muitos anos de vida... tudo de bom pra você viu!
“A falta de especificidade dessa gente me faz não ter é nada... Tudo de bom! Tudo de bom é o que afinal? A pessoa tem preguiça de me desejar alguma coisa e me deseja isso...”
Dona Célia sempre pensava desse jeito.
Quando trabalhava numa empresa de chocolates, todo ano havia festa surpresa. No terceiro ano, Dona Célia se assustava por praxe. Levava o susto - “Ai, meu Deus... vocês são loucos!!! Não precisava!!!” - e logo já emendavam a igualzice dessa atuação com as famosas felicitações. Vinha o primeiro – que se adiantava logo após o susto e que era, portanto, quem havia preparado a festa surpresa – e dizia: “Oh, Dona Célia!!! Parabéns... muitas felicidades... muitos anos de vida.. tudo de bom pra você viu...”
Naquele mesmo dia, antes de voltar pra casa, e já era bem tarde, teve a infelicidade de perguntar as horas pra Clotilde que respondeu: “Vinte e quatro e trinta e dois.” Ah que ótimo, pensava Célia, o dia agora aumentou uma hora. Está aí outra coisa que a irritava: aqueles que diziam a hora com números depois do vinte e quatro. Pra ela era o cúmulo. Se você diz 24 e 30 e o dia tem 24 horas, parece que ele tem mais de 24 horas.
E ia ela saindo da tal festa surpresa daquele ano, quando Clotilde se lembrou: “Ah, Dona Célia... Parabéns viu! Muitas felicidades, muitos anos de vida, tudo de bom pra senhora e que Deus te abençoe!” Agora, não pense você que a última frase de Dona Clotilde era nova. Não era não. “Que Deus te abençoe” é um acréscimo na felicitação vinda de pessoas religiosas.

Naquele dia 27 de Agosto se arrumou como sempre fazia em todos os seus aniversários. E foi ao mercado como de costume comprar os produtos pra fazer os deliciosos acepipes do ano – que eram os mesmos do ano passado, afinal, pensava ela, além das mesmas falas as pessoas gostavam de comer sempre as mesmas coisas.
“O mundo sofre é de falta de criatividade!”
Como sempre, Dona Célia foi pegar o ônibus que ia até ao mercado. Mas quando chegava à parada, uma amiga sua a viu na rua e gritou de longe: “Céliaaa!!! Parabéns viu... muitas felicidades... muitos anos de... BUM.”
Dona Célia foi atropelada.
Olhou pra ver sua amiga cumprimentá-la e se esqueceu de sair do meio da rua. Horas depois, no hospital, Dona Célia ouviu alguém dizer... Já são 24 horas e 37 minutos. Um minuto depois, ela falecia feliz já que seu dia teve 38 minutos a mais.
Uma senhora a viu e disse: “no dia do aniversário, pobrezinha!! Que Deus a abençoe.” Era o acréscimo vindo de uma pessoa religiosa que faltava Dona Célia ouvir.